Cine Miramar

O Cinema do Miramar funcionou nos primeiros anos da década de 1960, entre 1961 e 1963, promovido pelo  Sr. Pedro Aguiar Coelho (ou Seu Pedro "da Malária"), um dos inquilinos do segundo andar do prédio, que foi construído na década de 1930 para armazenar as mercadorias transportadas pelo trem. A fundação deste prédio está associada a um grupo de fazendeiros das regiões de Bananal, Bambuí e Bom Jardim que criou uma sociedade e construiu ali o “Mira o Mar Sociedade Anônima”, onde faziam encontros políticos. Após a sociedade se desfazer nos anos 1940, o prédio passou por vários donos e foi desmembrado mantendo o Miramar Clube no andar superior. No andar térreo funcionaram alguns comércios, inclusive um bar com sinucas e bilhar, de propriedade do Seu Doca. Antes mesmo de exercer atividades cinematográficas, o clube foi um local de festas e bailes carnavalescos, frequentados pelas classes mais desfavorecidas, sobretudo pelos ex-escravos que permaneceram em Maricá. Há quem diga que este foi, na verdade, um projeto político: o clube teria sido criado para que os negros não fossem embora da cidade e assim os fazendeiros continuassem usufruindo de mão de obra barata. Surge daí um forte preconceito da elite maricaense em relação ao público e às atividades de entretenimento que ali existiam: a elite não frequentava esse espaço.

Já na década de 1960, o Cinema do Miramar mantem-se um local frequentado pelas classes populares e continuou sendo estigmatizado: "ai da moça de família que entrasse no Miramar", segundo nos conta a historiadora maricaense Maria Penha. Seu Pedro da Malária (assim conhecido por ter sido funcionário público do Ministério da Saúde no Departamento Nacional de Endemias Rurais) comprou os equipamentos de projeção usados de um umigo do Rio do Ouro e estes provavelmente foram adquiridos do circuito exibidor de São Gonçalo.

As memórias que aqui reunimos são de Luiz Carlos Bittencourt, mais conhecido como Carinha, que vivenciou de perto as histórias do Cinema do Miramar entre seus 8 e 11 anos de idade por ser filho do Seu Pedro da Malária. Carinha nos conta que era o pai quem ia de ônibus até o Rio do Ouro alugar os filmes, ele mesmo cobrava e recebia os bilhetes do plateia e em seguida subia na cabine para projetar o filme. Tudo funcionava de forma bastante amadora, com bancos compridos de madeira e sem encosto. A sala comportava cerca de 100 pessoas e era comum os espectadores dormirem por ali mesmo. O cinema costumava funcionar às terças e quintas-feiras e aos sábados e domingos e geralmente exibia o mesmo filme ao longo da semana inteira. Foram exibidas ali muitas séries americanas, filmes de bang banga, além de títulos da Atlântida Cinematográfica, grande produtora de cinema nacional desta época. Carinha lembra-se bem da exibição do filme Patrulheiro Rodoviário e Bonitinha mas Ordinária, e assim como este, muitos filmes impróprios para menores.

Encerrada as atividades do cinema,  passou a funcionar no local o primeiro sistema de comunicação de Maricá, cujo dono era seu Toninho Cotó, que instalou auto-falantes nas janelas e sacadas do prédio e montava diversos programas de auditório de calouros e de crianças.

*Esta pesquisa foi realizada a partir de entrevistas, matérias de jornais e pesquisa bibliográfica que compuseram um primeiro conjunto de informações expostas aqui. Caso queira contribuir com sugestões, novos dados ou lembranças que acrescentem ou retifiquem algum dado, entre em contato por aqui. 

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