Cinema Sr. Nobre

No bairro de Manoel Ribeiro, o Sr Manoel José da Costa, mais conhecido como Seu Nobre, também projetou filmes no galpão do seu armazém na década de 1950. A região, ainda hoje considerada rural,  já foi um local economicamente próspero, onde havia posto de gasolina, cartório e diversos comércios. Era a região das principais fazendas de Maricá, onde passava a linha férrea e havia uma importante estação de trem para escoamento da produção agrícola a todo o Estado do Rio de Janeiro.

As memórias reunidas  aqui são relatos orais de Dona Doca e Derly da Costa, respectivamente esposa e filho do Seu Nobre. Depois que se casou, Seu Nobre herdou o armazém de seu padrinho e ali vendia de tudo: roupa, mantimento, utensílios domésticos, etc. Localizado exatamente na entrada de Bambuí, o armazém era uma construção grande, de madeira, com fachada de arquitetura colonial, telhas francesas. Aos fundos, havia um galpão usado para depósito de mercadorias e outro que mais tarde tornou-se uma sala de exibição caseira. Seu Nobre percorria por cidades do Rio de Janeiro e São Paulo para comprar mercadorias e tornou-se um entusiasta da cultura e dos novos aparatos tecnológicos da época. Numa dessas viagens ou talvez recebendo algum comerciante de estrada, comprou equipamentos usados de projeção e pequenos filmes (provalmente de 16mm). Ele mesmo aprendeu a operar a máquina e passou a exibi-los em seu galpão, onde havia uma parede com um retângulo pintado de branco para demarcar o centro da projeção, tábuas de madeira que serviam com assento e chão de terra batida.

A sala de exibição improvisada funcionava com gerador e comportava cerca de 50 pessoas. Seu Nobre exibia ali as animação da Walt Disney que havia comprado - seu filho Derly lembra-se bem dos filmes de Pato Donald. A vizinhança, constituída por trabalhadores rurais das fazendas vindos de Cordeirinho, Pintobal, Limão e do próprio Manoel Ribeiro, era avisada poucos dias antes da exibição ao passarem para comprar mantimentos. Todos chegavam à noitinha, a cavalo ou a pé, quando o armazém fechava e ali se reuniam para assitir ao espetáculo visual promovido gratuitamente pelo Seu Nobre.

Além de exibição de filmes, Seu Nobre também realizou apresentações de marionetes e shows de calouros no mesmo galpão, que se tornou a única atração cultural da região na época. Não há vestígios desse lugar. Em 1969 o armazém pegou fogo por completo, destruindo tanto as mercadorias, os rolos de filme e toda a casa em si. Logo depois, com a decadência das fazendas e o êxodo rural na década de 1970, o bairro se esvazia assim como as memórias da vida cultural do local.

*Esta pesquisa foi realizada a partir de entrevistas, matérias de jornais e pesquisa bibliográfica que compuseram um primeiro conjunto de informações expostas aqui. Caso queira contribuir com sugestões, novos dados ou lembranças que acrescentem ou retifiquem algum dado, entre em contato por aqui. 

 

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