Abertura da mostra com Cine Concerto

A Mostra Maricá Cinema e Memória terá o prazer de apresentar uma Cine Orquestra no dia do lançamento do evento: 23 de novembro, às 18h. A Soundpainting Rio, comandada pelo Maestro Taiyo Jean Omura, é quem realiza o espetáculo orquestrando ao vivo o filme mudo “Sherlock Jr”, do grande ator e diretor Buster Keaton!

Faremos uma bela homenagem aos primórdios do cinema, que também foram vivenciados em Maricá dentro do Cine-Teatro Fróes da Cruz, na primeira década do século XX. Praticamente todos os frequentadores dessa sala já faleceram, mas sabemos que lá houve algumas sessões orquestradas ao vivo. Talvez o avó ou a avó de vocês ainda guarde alguma memória, quem poderia nos contar mais?

 

Cine-teatro Fróes da Cruz

O primeiro cinema do qual temos notícia em Maricá foi chamado de Cine Teatro Fróes da Cruz. Os relatos que aqui compartilhamos provém de conversas entre a historiadora Maria da Penha e o bisneto de Macedo Soares, figura influente e presente na inauguração do cinema. Dr. Luis Carlos Fróes da Cruz, pai do famoso ator niteroiense Leopoldo Froes da Cruz, tinha relações estreitas com políticos influentes de Maricá, dentre eles estavam os juristas Joaquim Antônio de Macedo Soares e Antônio Augusto Ribeiro de Almeida que aconselharam Fróes, a construir uma casa de espetáculos em Maricá. O espaço localizava-se na atual Rua Ribeiro de Almeida, aparentemente entre os números 140 e 131, no qual recentemente foi a Casa da Empada e a sede da Unimed e hoje um terreno vazio com escombros. Penha afirma que após a reforma de um “casarão grande, com muito mato em volta”, Dr. Luis Carlos Fróes da Cruz, em conjunto com pessoas influentes de Maricá, teria inaugurado o espaço em 1899 e funcionou até os anos de 1920.

Neste período de inauguração do Cine-Teatro Leopoldo Froes da Cruz, era costumeiro trupes teatrais e de atrações de variedades percorrerem as vilas e cidades do interior do Brasil. A Estrada de Ferro de Maricá funcionava como suporte para estas caravanas artísticas e a novidade do cinematógrafo, que chegou ao Rio de Janeiro em 1896, estava dentro das atrações que viajavam para o interior. De acordo com Rafael de Luna Freire, em Niterói, entre os anos de 1897 e 1907 só existiram “apresentações itinerantes” do cinematógrafo que seguiam posteriormente para cidades próximas. Neste sentido, supomos que Maricá, com sua ligação férrea que terminava no bairro de Neves, fronteiriço com Niterói, pode ter recebido alguma apresentação desses primeiros exibidores itinerantes. Sendo assim, acreditamos que o Cine Teatro Leopoldo Fróes da Cruz ainda não tinha as características do que consideramos cinema hoje em dia e sim a de uma casa de espetáculos de variedades, recebendo diversas apresentações itinerantes com diferentes atrações.

Nesta primeira fase da pesquisa, não conseguimos encontrar fotografias, reportagens ou documentos que comprovem o local exato e as datas de funcionamento do primeiro cinema da cidade. Em entrevista com Luiz Carlos Bittencourt (Carinha) e Pedro Mendonça Pereira, descobrimos que o Cine-Teatro Froes da Cruz funcionava no mesmo lugar do antigo comércio do Sr. Alvinho, avô de Carinha. Pedro recorda que a sua primeira ida ao cinema foi aos três anos de idade e que contou com o auxílio de uma empregada da família para entrar escondido. Nesta ocasião lembra com vividez que a exibição foi de um filme com “umas moscas andando na tela. Achei que era um monstro. Tinha três anos, era gigante para mim”. O primeiro contato com a projeção gerou um grande espanto e sua retirada imediata da sala. Ele pondera também que neste cinema foram exibidos filmes de Charlie Chaplin e Irmãos Marx. O cinema sonoro surge em 1927 nos Estados Unidos e chega ao Brasil em 1929, a nova tecnologia que permitia o sincronismo de imagem e som sistematizava uma prática que até então era realizada de forma improvisada através de vitrolas, dublagens ao vivo e orquestras. Em Maricá, Pedro Pereira relata que ouviu, em sua infância, que as exibições contavam com a participação da banda da cidade nas apresentações. Ao comparar com o espaço do Cine Maricá, Pedro  sugere que o primeiro cinema devia comportar cerca de 150 lugares.

Mais um ponto curioso desta história está presente no livro do historiador Nilton Cezar Martins Brum, em sua obra o autor revela que durante um período o primeiro cinema foi propriedade do cinema, Dr. Euclides Silva e a Professora Cacilda Teixeira Carvalho Silva programavam filmes e espetáculos teatrais que contavam com a participação de alunos do Colégio Estadual Elisiário Matta. De acordo com o depoimento da Sra Maria Madalena Rangel da Costa, presente na obra de Brum, em dia de apresentação, a Professora Cacilda Teixeira percorria o centro da cidade batendo palmas e gritando “Vai começar o espetáculo”.

Na busca por uma confirmação do exato local do primeiro cinema da cidade, entrevistamos o Sr. Milton Bittencourt que falou sobre o antigo comércio do seu pai Sr. Alvinho, também localizado na rua Ribeiro de Almeida, construído na mesma quadra do antigo Cinema Froes da Cruz. O espaço onde funcionou o cinema possuía piso inclinado, palco e um camarim na parte de baixo. Milton relembra que não teve muito contato com o barracão porque naquela localidade algumas construções antigas foram derrubadas e a área foi loteada para a construção de novos prédios. “O prédio de papai tinha seis portas de frente e ficava ali aonde foi a casa da empada, ali ao lado que tinha este prédio, mas quando papai construiu as casinhas dele já não existia este prédio não”.

*Esta pesquisa foi realizada a partir de entrevistas, matérias de jornais e pesquisa bibliográfica que compuseram um primeiro conjunto de informações expostas aqui. Caso queira contribuir com sugestões, novos dados ou lembranças que acrescentem ou retifiquem algum dado, entre em contato por aqui. 

Cine Maricá

Principal equipamento cultural em Maricá ao longo dos anos de 1930 e 1940, o Cine Maricá reúne histórias de diversas famílias maricaenses, dos empreendedores que alavancaram a cidade e da própria história do cinema, além de inúmeras experiências estéticas e afetivas que aconteceram dentro da sala.

O prédio, propriedade ao Sr. Jacinto Caetano, foi alugado por diversos empreendedores que viram na exibição cinematográfica uma atividade rentável, embora o cinema tenha sido fechado e reaberto sequencialmente. Assim, ao final de 1930 o Cine Maricá pertenceu ao Sr. Oscar, depois à Família Pimentel, ainda com os aparatos de cinema mudo. Com a falência da sala, os equipamentos são vendidos e posteriormente os irmãos Sérgio Pereira e Pedro Paulo Pereira ou "Seu Pedro Sapateiro", que reabrem o espaço reinaugurando-o já com os aparatos do cinema sonoro - seu filho mais velho, aos 11 anos era o projecionista. A sala foi repassada ao Sr. Danilo, economista e empreendedor de fora da cidade, que logo depois desiste de manter a atividade de exibição. Novamente o Sr. Pedro Pereira, sem aceitar que o cinema na cidade morresse, reassume o Cine Maricá em 1946. Neste período quem opera o projetor é o seu filho mais novo, Pedro Mendonça.  Por último a sala foi assumida pelos senhores Eduardo Pinto e o dentista Walter D'Giorgio e poucos meses depois fecha em definitivo. Os equipamentos de projeção são então levados para a casa deste último, que aproveita as ferramentas e filmes de que dispunha e promove, já na década de 1950, um cinema em sua casa: O cinema da Rampa.

O fio da memória desta narrativa é costurado pelo próprio Pedro Mendonça, filho do grande entusiasta do Cine Marica, Sr. Pedro Paulo Pereira, que exerceu o ofício de sapateiro na cidade. Funcionando na Rua Ribeiro de Almeida, Nº 92, o prédio do Cine Maricá tinha a dupla função de cinema e teatro e nele realizaram-se até mesmo casamentos, além de show de calouros e diversas atividades culturais e políticas. Segundo Sr. Pedro, o cinema de seu pai era o único lugar no centro que mantinha a luz elétrica acesa depois que o gerador da cidade era desligado. Na frente do cinema havia um único poste de luz, que quando se acendia iluminava a Rua Ribeiro de Almeida por onde passeavam os casais, como mariposas atraídas pela luz.

Sr. Pedro Mendonça trabalhou no cinema do pai como projecionista desde os 13 anos, recorda que a sala comportava cerca de 250 lugares e que mesmo assim, quando havia projeção de algum filme nacional, como aqueles protagonizados por Oscarito e Grande Otelo, precisavam pedir cadeiras emprestadas aos vizinhos e por vezes fazer mais de uma exibição devido ao grande número de espectadores. Lembra também com alguma graça que quando acontecia de os filmes arrebentarem durante a projeção era necessário ser rápido em remendá-los para acalmar os ânimos do público.

Para manter as exibições era preciso se deslocar até a Capital, no Rio de Janeiro, numa época em que ainda não existia a ponte Rio - Niterói, ou seja, os exibidores saiam de Maricá, pegavam trem até Niterói e depois tomavam a barcaça para chegar até as distribuidoras na Cinelândia, como a Fox, RKO, Metro Gold. Os filmes de ação americanos faziam sucesso pelo bang-bang, mas o público preferia as comédias nacionais por se identificarem com os personagens e também por não ter de ler as legendas.

*Esta pesquisa foi realizada a partir de entrevistas, matérias de jornais e pesquisa bibliográfica que compuseram um primeiro conjunto de informações expostas aqui. Caso queira contribuir com sugestões, novos dados ou lembranças que acrescentem ou retifiquem algum dado, entre em contato por aqui. 

Cinema da Rampa

Ao final das atividades do Cine Maricá, Sr. Pedro Pereira vendeu os equipamentos de projeção para o dentista Walter Elias D’Giorgio, que montou na garagem de sua casa, na Rua Carlos Rangel, um pequeno cinema, que ficou conhecido como Cinema da Rampa, funcionando do final dos anos 50 até o início dos anos 60.

Luiz Carlos Bittencourt (Carinha), que chegou a frequentar o cinema caseiro do dentista, contou-nos que a tela era colocada no topo da rampa da garagem e lá se projetavam os filmes de maneira improvisada, ao ar livre. A atividade cineclubista ocorria aos domingos, exibindo principalmente filmes de animação para crianças, comportando cerca de 40 pessoa. Alberto Luis Machado Borges (Dr. Albertinho) lembra-se de um chaveirinho que o próprio Dr. Walter distribuía para as famílias frequentadoras do cinema, como um passe para comparecer à sessão. Por outro lado, a historiadora Maria Penha relata que o espaço era restrito a um grupo seleto de moradores do centro da cidade. Ela, que morava em Bom Jardim, não comparecia às exibições do Cinema na Rampa e, como lembra Carinha, alguns ficavam do lado de fora dos muros, procurando enxergar alguma coisa do que se passava na tela.

Suscetível às condições climáticas, por vezes as sessões tiveram de ser interrompidas pela chuva, com direito a raios e trovões, e todos saiam correndo buscando onde se abrigar enquanto seu Walter corria para salvar o equipamento. Estes e outros motivos fizeram com que a empreitada não durasse muito tempo, mas não soubemos o que foi feito do equipamento de projeção.

*Esta pesquisa foi realizada a partir de entrevistas, matérias de jornais e pesquisa bibliográfica que compuseram um primeiro conjunto de informações expostas aqui. Caso queira contribuir com sugestões, novos dados ou lembranças que acrescentem ou retifiquem algum dado, entre em contato por aqui. 

 

Cinema Sr. Nobre

No bairro de Manoel Ribeiro, o Sr Manoel José da Costa, mais conhecido como Seu Nobre, também projetou filmes no galpão do seu armazém na década de 1950. A região, ainda hoje considerada rural,  já foi um local economicamente próspero, onde havia posto de gasolina, cartório e diversos comércios. Era a região das principais fazendas de Maricá, onde passava a linha férrea e havia uma importante estação de trem para escoamento da produção agrícola a todo o Estado do Rio de Janeiro.

As memórias reunidas  aqui são relatos orais de Dona Doca e Derly da Costa, respectivamente esposa e filho do Seu Nobre. Depois que se casou, Seu Nobre herdou o armazém de seu padrinho e ali vendia de tudo: roupa, mantimento, utensílios domésticos, etc. Localizado exatamente na entrada de Bambuí, o armazém era uma construção grande, de madeira, com fachada de arquitetura colonial, telhas francesas. Aos fundos, havia um galpão usado para depósito de mercadorias e outro que mais tarde tornou-se uma sala de exibição caseira. Seu Nobre percorria por cidades do Rio de Janeiro e São Paulo para comprar mercadorias e tornou-se um entusiasta da cultura e dos novos aparatos tecnológicos da época. Numa dessas viagens ou talvez recebendo algum comerciante de estrada, comprou equipamentos usados de projeção e pequenos filmes (provalmente de 16mm). Ele mesmo aprendeu a operar a máquina e passou a exibi-los em seu galpão, onde havia uma parede com um retângulo pintado de branco para demarcar o centro da projeção, tábuas de madeira que serviam com assento e chão de terra batida.

A sala de exibição improvisada funcionava com gerador e comportava cerca de 50 pessoas. Seu Nobre exibia ali as animação da Walt Disney que havia comprado - seu filho Derly lembra-se bem dos filmes de Pato Donald. A vizinhança, constituída por trabalhadores rurais das fazendas vindos de Cordeirinho, Pintobal, Limão e do próprio Manoel Ribeiro, era avisada poucos dias antes da exibição ao passarem para comprar mantimentos. Todos chegavam à noitinha, a cavalo ou a pé, quando o armazém fechava e ali se reuniam para assitir ao espetáculo visual promovido gratuitamente pelo Seu Nobre.

Além de exibição de filmes, Seu Nobre também realizou apresentações de marionetes e shows de calouros no mesmo galpão, que se tornou a única atração cultural da região na época. Não há vestígios desse lugar. Em 1969 o armazém pegou fogo por completo, destruindo tanto as mercadorias, os rolos de filme e toda a casa em si. Logo depois, com a decadência das fazendas e o êxodo rural na década de 1970, o bairro se esvazia assim como as memórias da vida cultural do local.

*Esta pesquisa foi realizada a partir de entrevistas, matérias de jornais e pesquisa bibliográfica que compuseram um primeiro conjunto de informações expostas aqui. Caso queira contribuir com sugestões, novos dados ou lembranças que acrescentem ou retifiquem algum dado, entre em contato por aqui. 

 

Cine Miramar

O Cinema do Miramar funcionou nos primeiros anos da década de 1960, entre 1961 e 1963, promovido pelo  Sr. Pedro Aguiar Coelho (ou Seu Pedro "da Malária"), um dos inquilinos do segundo andar do prédio, que foi construído na década de 1930 para armazenar as mercadorias transportadas pelo trem. A fundação deste prédio está associada a um grupo de fazendeiros das regiões de Bananal, Bambuí e Bom Jardim que criou uma sociedade e construiu ali o “Mira o Mar Sociedade Anônima”, onde faziam encontros políticos. Após a sociedade se desfazer nos anos 1940, o prédio passou por vários donos e foi desmembrado mantendo o Miramar Clube no andar superior. No andar térreo funcionaram alguns comércios, inclusive um bar com sinucas e bilhar, de propriedade do Seu Doca. Antes mesmo de exercer atividades cinematográficas, o clube foi um local de festas e bailes carnavalescos, frequentados pelas classes mais desfavorecidas, sobretudo pelos ex-escravos que permaneceram em Maricá. Há quem diga que este foi, na verdade, um projeto político: o clube teria sido criado para que os negros não fossem embora da cidade e assim os fazendeiros continuassem usufruindo de mão de obra barata. Surge daí um forte preconceito da elite maricaense em relação ao público e às atividades de entretenimento que ali existiam: a elite não frequentava esse espaço.

Já na década de 1960, o Cinema do Miramar mantem-se um local frequentado pelas classes populares e continuou sendo estigmatizado: "ai da moça de família que entrasse no Miramar", segundo nos conta a historiadora maricaense Maria Penha. Seu Pedro da Malária (assim conhecido por ter sido funcionário público do Ministério da Saúde no Departamento Nacional de Endemias Rurais) comprou os equipamentos de projeção usados de um umigo do Rio do Ouro e estes provavelmente foram adquiridos do circuito exibidor de São Gonçalo.

As memórias que aqui reunimos são de Luiz Carlos Bittencourt, mais conhecido como Carinha, que vivenciou de perto as histórias do Cinema do Miramar entre seus 8 e 11 anos de idade por ser filho do Seu Pedro da Malária. Carinha nos conta que era o pai quem ia de ônibus até o Rio do Ouro alugar os filmes, ele mesmo cobrava e recebia os bilhetes do plateia e em seguida subia na cabine para projetar o filme. Tudo funcionava de forma bastante amadora, com bancos compridos de madeira e sem encosto. A sala comportava cerca de 100 pessoas e era comum os espectadores dormirem por ali mesmo. O cinema costumava funcionar às terças e quintas-feiras e aos sábados e domingos e geralmente exibia o mesmo filme ao longo da semana inteira. Foram exibidas ali muitas séries americanas, filmes de bang banga, além de títulos da Atlântida Cinematográfica, grande produtora de cinema nacional desta época. Carinha lembra-se bem da exibição do filme Patrulheiro Rodoviário e Bonitinha mas Ordinária, e assim como este, muitos filmes impróprios para menores.

Encerrada as atividades do cinema,  passou a funcionar no local o primeiro sistema de comunicação de Maricá, cujo dono era seu Toninho Cotó, que instalou auto-falantes nas janelas e sacadas do prédio e montava diversos programas de auditório de calouros e de crianças.

*Esta pesquisa foi realizada a partir de entrevistas, matérias de jornais e pesquisa bibliográfica que compuseram um primeiro conjunto de informações expostas aqui. Caso queira contribuir com sugestões, novos dados ou lembranças que acrescentem ou retifiquem algum dado, entre em contato por aqui. 

Cinema São Jorge

O ex-prefeito Jorge Silva é descrito por seus filhos Henrique Fernando, Jorge e Wagner sempre como um visionário, de espírito empreendedor, e sobretudo como um romântico. Gostava muito de cinema e via a necessidade de se ter entretenimento desta natureza em Maricá. Henrique, o filho mais velho, lembra que foi ele mesmo quem projetou o desenho do cinema, fazendo de tal forma que pudesse funcionar tanto como cinema quanto como teatro, contando inclusive com um camarim debaixo do palco. A construção começou por volta do ano de 1962, inaugurando-o cerca de dois anos depois na Rua Domício da Gama, onde hoje está uma igreja, próxima ao Cinema Henfil, com a exibição do filme épico italiano “El Cid”, protagonizado por Charlton Heston e Sophia Loren. O evento foi uma grande festa, lotando o cinema.

Jorge e Wagner recordam que havia exibições de segunda a quarta, quando geralmente o movimento era menor, e de quinta a domingo, quando passavam-se as fitas mais populares e havia maior público. Segundo Maria Penha, durante os anos de seu funcionamento, o Cinema São Jorge foi o maior entretenimento em Maricá. Quem fazia a programação era o próprio Jorge Silva, que contava com conselhos da família e de seus fregueses, que passavam pela casa do ex-prefeito comentando o que achavam dos filmes e faziam sugestões à programação. Segundo nos contou Henrique, os filmes que mais faziam bilheteria eram, em primeiro lugar, os filmes mexicanos, em segundo os filmes românticos e em terceiro, os filmes épicos. Os irmãos recordam-se de filmes como “El Cid”, “Helena de Tróia”, “O Sol por Testemunha”, “Assalto ao Trem Pagador”, “Os Paqueras”, “Ben-Hur”, “Manto Sagrado”, “Cleópatra”, além de vários filmes brasileiros da chamada “chanchada” e outros como “O Gordo e o Magro”, “Os Três Patetas” e os filmes de Mazzaropi, que eram geralmente exibidos em uma programação especial em comemoração ao dia das crianças, quando Jorge Silva convidava as escolas da cidade para levar seus alunos para assistir aos filmes gratuitamente.

Jorge Silva comprou seu equipamento de projeção em São Gonçalo e teve durante todo o período em que o cinema esteve em funcionamento um único projecionista responsável pelos três projetores do cinema. Seu Paulo, vindo de Niterói, fixou residência em Maricá, onde até hoje vivem seus filhos, foi o único a operar a projeção do Cinema São Jorge, autodidata, continuou trabalhando com Jorge Silva na prefeitura, como mecânico.

Segundo contam seus filhos, havia na fachada o letreiro “Cinema São Jorge”, na entrada, a bilheteria com os cartazes dos filmes que eram levados, e a bombonière, onde trabalhava Seu Nande, Sr. Fernando Henrique, avô dos entrevistados e pai do ex-prefeito. Havia uma entrada pela esquerda, que levava diretamente à sala de exibição com as cadeiras de madeira enfileiradas, e outra pela direita, com uma escada que levava até a sala onde ficavam os projetores, e também ao balcão superior, onde havia mais fileiras com cadeiras. O balcão era raramente utilizado, sendo aberto apenas em ocasiões de exibição de filmes importantes, nas quais compareciam as autoridades e a sala de cerca de 300 lugares ficava lotada.

O espaço hospedou também algumas edições do Festival da Canção e formaturas. Segundo nos contou Maria Penha, à época em que Jorge Silva já havia sido eleito prefeito da cidade, a atividade cinematográfica já estava entrando em decadência, o que no entanto, não causou o fechamento imediato do espaço, que continuou sendo usado como teatro para apresentações, comícios, festivais e formaturas.

 

*Esta pesquisa foi realizada a partir de entrevistas, matérias de jornais e pesquisa bibliográfica que compuseram um primeiro conjunto de informações expostas aqui. Caso queira contribuir com sugestões, novos dados ou lembranças que acrescentem ou retifiquem algum dado, entre em contato por aqui. 

Outros locais de exibição

EXIBIÇÃO NO BOTICÁRIO

Na entrevista que fizemos com a historiadora maricaense Maria Penha, ela nos contou de uma pequena atividade cinematográfica que teria acontecido também no começo do século XX. O boticário do Dr. João Dias de Souza Menezes, nascido em Maricá, era localizado na Fazenda da Serrinha em Bambuí. Dr. João estudou medicina no Rio de Janeiro e quando voltou à cidade natal, construiu o maior boticário de Maricá. Paralelamente à época do Cinema Fróes da Cruz, o doutor teria mantido em seu boticário máquinas que projetavam filmes da época do cinema mudo.

 

EXIBIÇÃO NA CASA DE REMÉDIOS CONDE MODESTO LEAL

Na década de 40, o empresário Conde Modesto Leal, juntamente com Alfredo Marins, fundou o hospital que era chamado Casa do Remédio. Para este local teria sido levado um cinematógrafo pelo Dr. Orlando de Barros Pimentel, responsável pelo hospital. Os pacientes com transtornos psiquiátricos, mulheres diagnosticadas na época como "histéricas", ou mesmo “loucas” internadas inclusive por depressão pós-parto assistiam pequenos filmes como parte do tratamento.



*Esta pesquisa foi realizada a partir de entrevistas, matérias de jornais e pesquisa bibliográfica que compuseram um primeiro conjunto de informações expostas aqui. Caso queira contribuir com sugestões, novos dados ou lembranças que acrescentem ou retifiquem algum dado, entre em contato por aqui.